A IA precisa aprender a falar com o mundo real

Todo mundo vende a tecnologia, não o benefício dela.

A bolha do Vale do Silício

Agentes são o passo além do chatbot. O chatbot responde pergunta. O agente faz o trabalho: responde e-mail, pesquisa, organiza tarefa, escreve relatório. Em São Francisco, muita gente vive cercada disso no trabalho, todos os dias. É essa a bolha: um ambiente onde a IA faz parte do dia a dia, e quem está dentro dela assume que o resto do mundo é igual.

Não é. A adoção de IA está sendo muito mais lenta do que se imaginava.

Uma bolha densa de agentes conectados, cercada por pontos esparsos
Dentro da bolha, IA em todo lugar. Fora dela, quase nada.

Vai ser um choque de realidade quando essas pessoas perceberem que são a exceção. O dono de uma oficina, o gerente de uma loja com trinta funcionários, nenhum deles acorda pensando em agente de IA. Acordam pensando em como ganhar mais dinheiro, e é difícil perceber como a IA pode te levar até lá.

É o velho erro de marketing, o mais comum que existe. Todo mundo vende a tecnologia, não o benefício dela.

Hoje, o consumidor médio e o pequeno negócio usam IA como uma busca melhorada ou um chat simples. Enquanto isso, a bolha de São Francisco, na fronteira da tecnologia, usa IA como se estivesse anos na frente. Como entregar o valor de verdade para o mundo real?

Por que a adoção anda tão lenta?

Metade do problema é a facilidade de uso. Muita gente comum ficou impressionada com o GrokBot quando saiu, mas tudo aquilo já dava para fazer no Hermes. Por que o GrokBot fez muito mais barulho que o Hermes?

Porque o Hermes é uma ferramenta feita para gente técnica. Para usar, você precisa configurar, rodar comandos, resolver problemas. É difícil até para quem entende do assunto.

O GrokBot fez o básico direito: ele empacota essa mesma tecnologia num aplicativo simples, que qualquer pessoa instala e começa a usar em minutos. Isso se chama onboarding, a experiência dos primeiros minutos ao abrir um produto. Ele abriu para gente quase leiga o que o Hermes só abria para gente técnica. Ainda falta muito, mas é o começo.

Dois caminhos até o mesmo destino: um emaranhado, com comandos e erros, e outro reto
A mesma tecnologia, duas portas de entrada.

Se você usa IA só como chatbot, no ChatGPT ou no Claude, sua experiência quase não mudou desde 2022, quando o ChatGPT lançou pela primeira vez.

A outra metade é o custo. A IA é cobrada por tokens, a unidade que mede quanto você usa. Há alguns meses aconteceu uma loucura chamada tokenmaxxing: as pessoas usavam o máximo de tokens possível e se gabavam de quanto gastavam. Depois caiu a ficha: não dava para sustentar. A Uber queimou o orçamento de IA de 2026 em 4 meses. Meta e Amazon tinham ranking interno de quem gastava mais em tokens.

Isso mudou muito nos últimos meses. O divisor de águas foram os modelos chineses do DeepSeek e do GLM, que entregam inteligência bem próxima da fronteira por uma fração do preço dos grandes (cerca de 30 vezes mais baratos).

Por que pagar caro por um modelo de ponta, quando existe opção quase tão boa por muito menos?

O público geral e o desgosto pela IA

É inegável: muita gente odeia IA, principalmente as gerações mais jovens. E o desgosto não surgiu do nada.

A primeira causa é a própria narrativa que os labs criaram. Dario Amodei, CEO da Anthropic, fala abertamente sobre como a IA vai transformar o mercado de trabalho, e boa parte do que ele diz soa como “seu emprego está em risco”. Em maio de 2025 ele disse que a IA poderia eliminar metade dos empregos de escritório de nível inicial em até cinco anos e empurrar o desemprego para 10%–20%. A OpenAI fez o mesmo com anúncios mostrando a IA substituindo profissionais. Quando a empresa que vende a tecnologia é a mesma que te conta que ela vai te mandar embora, a confiança morre.

A segunda causa é a desconfiança com Big Tech em geral. Depois de anos de escândalos, de dados vazando, de algoritmos manipulando, o público já chega desconfiado. A IA é mais um capítulo dessa história para muita gente.

Tem também a preocupação com o clima. A IA roda em data centers, prédios gigantes cheios de computadores que consomem muita energia. Nos EUA, há campanha forte contra a construção desses prédios, e isso alimenta o sentimento de que a IA custa caro demais, em dinheiro e no planeta.

Os labs chineses estão tentando o contrário: propaganda humanista, mostrando a IA como algo que deixa a gente viver mais, não trabalhar mais. Os modelos também são mais baratos justamente porque precisam de menos recursos computacionais, o que, em geral, também significa menos energia por resposta e menos impacto no clima.

O que eu acho que vai acontecer

Parar a tecnologia é ilusão. Quem pede isso está se enganando. Mas as empresas de IA vão ter que ceder em algumas coisas para entrar de verdade na economia.

O marketing vai mudar, e já está mudando. Anthropic e OpenAI vão perceber o que o público quer ouvir. Sam Altman, CEO da OpenAI, já recuou da tese de “apocalipse de empregos”.

A automação vai chegar ao mundo real, em cada vez mais setores.

Mas demissão em massa? Não acredito. Até hoje, os grandes saltos de produtividade criaram mais emprego do que destruíram. E não acredito que a gente vai trabalhar mais. Acredito que vai trabalhar menos. A industrialização nos deu o fim de semana de dois dias há apenas 100 anos (!).

Semanas de trabalho: seis dias antes, cinco hoje, talvez quatro amanhã
Seis dias de trabalho, depois cinco. O próximo passo pode ser quatro.

Enquanto isso, o progresso vai continuar lentamente, ano após ano. A vida das pessoas vai melhorar, não piorar.

A IA tem o potencial de ser uma tecnologia profundamente humanista, que transforma a vida em algo mais abundante. Estamos num ponto único da história para fazer isso acontecer. As empresas que entenderem isso primeiro vão vencer a batalha da IA.

O que isso significa na prática

Na prática, vejo três consequências:

  1. Modelo aberto e barato vai vencer no longo prazo, por motivos comerciais.
  2. O discurso vai ficar mais humanista. Se quiserem entrar na economia real, é o único caminho.
  3. Tem espaço enorme para melhorar a experiência do usuário comum. O GrokBot foi só o começo. O Hermes e o OpenClaw foram a primeira leva, muito técnicos. O GrokBot quebrou o paradigma com uma experiência decente, mas ainda temos um longo caminho para percorrer.

A tecnologia já chegou. O que falta é ela aprender a falar a língua de quem está do lado de fora da bolha.

Se quiser receber os próximos textos, eles também saem no Substack.